domingo, 23 de agosto de 2026

A IMPORTÂNCIA DA MÚSICA PARA O DESENVOLVIMENTO DE PESSOAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA - TEA


Gleydson Frota de Almeida1

1Programa de Pós-graduação em Inclusão - PROFEI – Instituto Federal do Ceará - IFCE

gleydson.frota97@aluno.ifce.edu.br

Lattes: http://lattes.cnpq.br/8998253070596436

 

Mônica Maria Siqueira Damasceno2

2Programa de Pós-graduação em Inclusão - PROFEI – Instituto Federal do Ceará - IFCE

monica.damasceno@ifce.edu.br

Lattes: http://lattes.cnpq.br/8735337963121936

 

 

Resumo: Este artigo analisa os efeitos da música no desenvolvimento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), por meio de uma pesquisa bibliográfica de caráter exploratório e tem como objetivos específicos investigar as relações entre música e autismo, bem como analisar as contribuições da prática musical para o desenvolvimento humano. Os resultados indicam que a prática musical favorece a pessoa com TEA nas áreas de comunicação, interação social, engajamento afetivo e a aprendizagem, além de contribuir para a redução de comportamentos estereotipados e o fortalecimento dos vínculos sociais e familiares. Evidencia-se, ainda, a importância de diferenciar os conceitos de musicalização e musicoterapia, considerando que, embora ambas utilizem a música como elemento central, apresentam objetivos e metodologias distintas. Conclui-se que a música constitui um relevante recurso educacional e terapêutico, com potencial para promover o desenvolvimento integral de pessoas com autismo. Fundamentam esta investigação os estudos de Louro (2012), Gattino (2012), Penna (2015), entre outros.

 

Palavras-chave: Música; Transtorno do Espectro Autista; Musicalização; Musicoterapia.

 

1.      INTRODUÇÃO

A música constitui uma importante manifestação cultural e uma forma de expressão humana presente em diferentes sociedades ao longo da história. Sua utilização ultrapassa o campo artístico, estando relacionada a práticas religiosas, celebrações, manifestações sociais, contextos de guerras, movimentos corporais e processos de expressão e elaboração das emoções. Dessa forma, a música tem desempenhado um papel relevante na constituição da cultura e no desenvolvimento da humanidade.

Cabe destacar que, na Grécia Antiga, Platão já ressaltava, em sua obra A República, a importância da música para a formação do indivíduo. Segundo o filósofo, a música exercia influência direta sobre a alma, enquanto a ginástica (atividade física) contribuía para o desenvolvimento do corpo, promovendo o equilíbrio entre as dimensões física e intelectual do ser humano. Conforme citado por Sekeff (2002), Platão atribuía à música propriedades relacionadas ao cuidado da alma, razão pela qual a definia como um importante recurso para o desenvolvimento humano.

Na perspectiva de Swanwick (2003), a música constitui uma forma de pensamento e de conhecimento construída socialmente, estabelecendo relações com diferentes manifestações culturais. Ao discutir a educação musical, o autor afirma que:

 

o propósito da música não é, simplesmente, criar produtos para a sociedade. É uma experiência de vida em si mesma, que devemos tornar compreensível e agradável. É uma experiência do presente. Crianças estão vivendo hoje, e não aprendendo a viver para o amanhã. Devemos ajudar cada criança a vivenciar a música agora. (SWANWICK, 2003, p. 72).

  

A utilização da música como recurso terapêutico também vem sendo objeto de estudos há várias décadas, demonstrando resultados relevantes em diferentes áreas da saúde e da educação. Nesse sentido, investigar sua contribuição para o desenvolvimento humano torna-se pertinente, especialmente quando relacionada a pessoas com Transtorno do Espectro Autista - TEA.

De acordo com Gainza (1988, p. 22), "a música e o som, enquanto energia, estimulam o movimento interno e externo no homem, impulsionando-o à ação e promovendo uma multiplicidade de condutas de diferentes qualidades e graus". Tal compreensão reforça o potencial da música como instrumento capaz de favorecer aspectos cognitivos, emocionais, sociais e comportamentais.

A pesquisa parte da seguinte questão norteadora: a música pode constituir uma alternativa de comunicação e desenvolvimento para pessoas com TEA? Diante desse contexto, este artigo tem como objetivo geral analisar os efeitos da música no desenvolvimento da pessoa com Transtorno do Espectro Autista, e como objetivos específicos, busca investigar as relações entre música e autismo, bem como analisar as contribuições da prática musical para o desenvolvimento humano.

O estudo adota, como procedimento metodológico, a revisão bibliográfica de natureza exploratória baseada na análise sistemática da literatura científica buscando ampliar a compreensão acerca das relações entre música e autismo. Para tanto, foram analisadas produções científicas publicadas em livros, artigos, dissertações de mestrado e periódicos especializados sobre a temática.

Inicialmente, no texto, apresentam-se os conceitos metodológicos do trabalho, diferenças entre musicalização e musicoterapia, destacando suas especificidades conceituais. Em seguida, discutem-se as contribuições da música para o desenvolvimento de pessoas com TEA, com base nos referenciais teóricos selecionados para esta pesquisa. Por fim, são apresentados os resultados e discussão e as considerações finais, nas quais são retomados os principais resultados do estudo.

Embora existam pesquisas sobre educação musical e inclusão, observa-se que ainda são escassos estudos que sistematizam as evidências produzidas recentemente acerca da utilização da música como recurso pedagógico na Educação Especial, justificando a presente revisão.

 

2.      METODOLOGIA

Para a elaboração deste artigo, realizou-se uma pesquisa bibliográfica de caráter exploratório, fundamentada na análise de produções científicas relacionadas à temática investigada.

Como procedimentos metodológicos, foram adotadas as etapas propostas por Lakatos e Marconi (2003): escolha do tema, elaboração do plano de trabalho, identificação das fontes, compilação do material, fichamento, análise e interpretação dos dados e, por fim, redação do texto científico. Ainda de acordo com Lakatos e Marconi (2003, p. 45), a pesquisa bibliográfica sugere que:

 

as fontes para a escolha do assunto podem originar-se da experiência pessoal ou profissional, de estudos e leituras, da observação, da descoberta de discrepâncias entre trabalhos ou da analogia com temas de estudo de outras disciplinas ou áreas científicas.

  

A pesquisa fundamentou-se, principalmente, na análise de artigos publicados em revistas científicas, tese de doutorado, dissertação de mestrado e livros que abordam a temática investigada, selecionados por sua relevância e contribuição para a compreensão do objeto de estudo. Após a leitura dos títulos e resumos, procedeu-se à leitura integral dos textos e livros selecionados. Posteriormente, realizou-se análise temática buscando identificar convergências entre objetivos, metodologias e principais resultados.


3.      DIFERENÇAS ENTRE MUSICALIZAÇÃO E MUSICOTERAPIA

      3.1 Musicalização

 

A musicalização consiste no processo de desenvolvimento das habilidades musicais por meio da aprendizagem dos elementos fundamentais da linguagem da música, como ritmo, melodia, pulsação, timbre, intensidade, duração, fórmulas de compasso, percepção auditiva e apreciação musical. Trata-se do primeiro contato sistematizado com a linguagem musical, constituindo o alicerce para aprendizagens posteriores.

Embora seja frequentemente associada ao ensino infantil, a musicalização não se restringe às crianças. Jovens, adultos e idosos que não tiveram experiências anteriores com a música também podem participar desse processo, desenvolvendo competências musicais de acordo com suas possibilidades e interesses.

Nesse sentido, Penna (2015, p. 33) afirma que "musicalizar é desenvolver os instrumentos de percepção necessários para que o indivíduo possa ser sensível à música, apreendê-la, recebendo o material sonoro-musical como significativo". Assim, a musicalização não se limita ao ensino técnico da música, mas busca promover uma experiência de sensibilização estética, percepção sonora e construção do conhecimento musical.

Apesar de a música integrar o componente curricular Arte na Educação Básica, observa-se que conteúdos como ritmo, pulsação, melodia, timbre e apreciação musical ainda recebem pouca atenção em muitas escolas brasileiras. Em diversos contextos, a música permanece sendo compreendida apenas como entretenimento ou atividade recreativa, desconsiderando seu potencial formativo para o desenvolvimento cognitivo, artístico, cultural e social dos estudantes. Ao discutir esse processo, Penna (2015, p. 43) destaca que:

 

não compreendemos a musicalização apenas como um procedimento da pedagogia musical, um conjunto de técnicas que se justificam em si mesmas, por sua função imediata como etapa preparatória para um estudo de música mais amplo e aprofundado, de caráter técnico ou profissionalizante. Não cabe tomar a musicalização, portanto, como um trabalho “pré-musical”, uma preparação para um aprendizado nos moldes tradicionais (o estudo de “teoria musical”, de um instrumento etc.). Tampouco a entendemos como dirigida somente a crianças (o que é uma visão bastante comum).

 

 

 

Nessa perspectiva, a musicalização ultrapassa os limites do ensino tradicional da teoria musical, priorizando experiências significativas que permitam ao aprendiz vivenciar a música de forma ativa. Cantar, ouvir, improvisar, explorar sons, movimentar-se corporalmente e criar são práticas que favorecem a construção do conhecimento musical de maneira contextualizada.

Além disso, a musicalização pode dialogar com diferentes abordagens pedagógicas. Entre elas, destaca-se a adaptação da proposta triangular de Barbosa (2010), que articula três dimensões fundamentais do ensino da arte: apreciar, contextualizar e fazer artístico. Aplicada ao ensino da música, essa perspectiva favorece uma aprendizagem mais significativa, na qual o estudante não apenas executa práticas musicais, mas também compreende seus aspectos históricos, culturais e estéticos.

Desse modo, a musicalização configura-se como um importante recurso educacional, contribuindo para o desenvolvimento da percepção auditiva, da criatividade, da sensibilidade estética, da coordenação motora, da expressão corporal e da formação cultural dos indivíduos. Além de favorecer a aprendizagem musical, possibilita a formação de ouvintes mais críticos e conscientes, fortalecendo a valorização da diversidade cultural e artística.

 

3.2 Musicoterapia: conceito e contribuições

 

A musicoterapia, por sua vez, constitui uma área de conhecimento voltada à utilização da música como recurso terapêutico em processos de promoção da saúde, prevenção, reabilitação e desenvolvimento humano. Diferentemente da musicalização, seu objetivo não é ensinar música, mas utilizar os elementos musicais para favorecer mudanças cognitivas, emocionais, comportamentais, motoras e sociais dos indivíduos.

Sob o ponto de vista etimológico, o termo musicoterapia resulta da associação entre "música" e "terapia", evidenciando a utilização da música como instrumento de intervenção terapêutica. Nessa perspectiva, a música deixa de ser um fim em si mesma e passa a constituir um meio para alcançar objetivos relacionados ao cuidado em saúde.

Assim, a musicoterapia não está centrada na qualidade estética da produção musical, mas no potencial que os sons, o ritmo, a melodia, a improvisação e as experiências musicais possuem para favorecer processos terapêuticos em diferentes públicos, incluindo pessoas com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento e outras condições clínicas.

Historicamente, a utilização da música com finalidade terapêutica remonta à Antiguidade. Conforme discutido anteriormente, Platão já atribuía à música propriedades relacionadas ao equilíbrio da alma e ao desenvolvimento humano, compreensão que influenciou diferentes concepções acerca dos efeitos da música sobre o bem-estar.

Entre os principais recursos empregados na prática musicoterapêutica destacam-se o canto, a improvisação, a composição musical, a escuta ativa, a utilização de instrumentos musicais, a expressão corporal e os jogos musicais. Esses recursos são selecionados de acordo com as necessidades e objetivos terapêuticos de cada paciente.

Segundo Gattino (2012, p. 34), o processo musicoterapêutico pode ser organizado em três etapas principais:

·                Avaliação inicial: momento destinado à observação do paciente e de seus familiares, buscando compreender as características individuais, as necessidades e os objetivos da intervenção;

·                Tratamento: etapa em que ocorre a utilização dos recursos próprios da musicoterapia, envolvendo música, sons, voz, instrumentos musicais e experiências corporais; e

·                Avaliação final: fase destinada à análise dos resultados obtidos durante o processo terapêutico, verificando possíveis mudanças em relação às condições inicialmente observadas.

A organização dessas etapas permite o planejamento de intervenções individualizadas, respeitando as características de cada sujeito e favorecendo o acompanhamento sistemático do processo terapêutico.

Desde a década de 1960, a musicoterapia vem sendo empregada em intervenções com pessoas com TEA, apresentando resultados promissores no desenvolvimento da comunicação, da interação social, da autorregulação emocional e da redução de determinados comportamentos estereotipados.

Entretanto, é importante destacar que a atuação em musicoterapia exige formação acadêmica específica e habilitação profissional. O exercício dessa atividade compete ao musicoterapeuta, profissional capacitado para planejar, executar e avaliar intervenções terapêuticas fundamentadas em conhecimentos científicos da área. Nesse sentido, Freire et al. (2017, p. 89) ressalta que:

 

 

o musicoterapeuta que queira promover maiores avanços em seus pacientes deve também estar atento à dimensão pedagógica de sua prática, aferindo e considerando as habilidades alcançadas. Da mesma forma, o educador musical que lida com alunos com deficiência deve estar atento às melhorias que seu aluno pode obter por meio do aprendizado musical e potencializá-las através do estímulo desses avanços.

  

Essa reflexão evidencia que, embora musicalização e musicoterapia estabeleçam pontos de aproximação, especialmente pelo uso da música como elemento central, ambas possuem finalidades distintas. A musicalização está inserida no campo da educação e tem como objetivo promover a aprendizagem musical. A musicoterapia, por sua vez, integra o campo da saúde e utiliza a música como recurso terapêutico voltado ao desenvolvimento humano e à promoção do bem-estar.

Portanto, distinguir esses dois termos torna-se fundamental para evitar equívocos conceituais e metodológicos. Embora compartilhem o mesmo objeto, a música, cada área apresenta pressupostos teóricos, objetivos, métodos e campos de atuação próprios, devendo ser compreendida em sua especificidade.

 

4.      A MÚSICA E O DESENVOLVIMENTO DE PESSAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA)

 

O Transtorno do Espectro Autista caracteriza-se como uma condição do neurodesenvolvimento que afeta, em diferentes níveis, a comunicação, a interação social e o comportamento. Suas manifestações variam significativamente entre os indivíduos, razão pela qual o autismo é compreendido como um espectro, no qual cada pessoa apresenta características, necessidades e potencialidades próprias.

Entre as características mais frequentemente observadas em pessoas com TEA destacam-se dificuldades na comunicação verbal e não verbal, limitações na interação social, comportamentos repetitivos ou estereotipados, interesses restritos e alterações no processamento sensorial. Entretanto, é importante ressaltar que essas características não se manifestam da mesma forma nem com a mesma intensidade em todas as pessoas autistas.

Conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), publicado pela American Psychiatric Association (2014), o Transtorno do Espectro Autista pode estar associado a diferentes condições clínicas e apresenta especificadores que permitem caracterizar sua manifestação em cada indivíduo, considerando aspectos como comprometimento intelectual, linguagem e possíveis condições médicas ou genéticas associadas.

Segundo o DSM-5, o TEA apresenta dois domínios centrais de comprometimento:

·                déficits persistentes na comunicação e na interação social em diferentes contextos;

·                padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.

Essas características podem influenciar diretamente os processos de aprendizagem, socialização e desenvolvimento humano, exigindo intervenções educacionais e terapêuticas que respeitem as singularidades de cada pessoa.

Nesse contexto, a música destaca-se como um importante recurso de mediação, pois possibilita formas diversificadas de expressão, interação e comunicação. Considerando que parte das pessoas autistas apresenta dificuldades na linguagem oral, as experiências musicais podem favorecer processos comunicativos não verbais, ampliando as possibilidades de interação com outras pessoas. Além disso, a música pode contribuir para a organização de aspectos relacionados ao processamento sensorial, favorecendo situações de aprendizagem em ambientes estruturados e acolhedores (Rocha e Boggio, 2025).

Ressalta-se, entretanto, que os estímulos musicais devem ser cuidadosamente planejados, considerando as particularidades sensoriais de cada indivíduo, sobretudo nos casos de hipersensibilidade auditiva. Diante desse cenário, é importante questionar: quais são as contribuições da música para o desenvolvimento da pessoa com TEA?

A literatura analisada evidencia que uma das principais contribuições da prática musical reside na promoção da interação social. As atividades musicais favorecem o estabelecimento de vínculos, estimulam processos comunicativos e ampliam oportunidades de participação coletiva, elementos fundamentais para o desenvolvimento de pessoas autistas.

Contudo, é importante destacar que os benefícios decorrentes da música não ocorrem de maneira uniforme. Cada pessoa autista responde às experiências musicais de forma singular, de acordo com suas características individuais, seu perfil sensorial, seus interesses e seu contexto de desenvolvimento.

Corroborando essa perspectiva, observa-se que a prática musical favorece diferentes experiências de comunicação social. Ao cantar, tocar instrumentos, improvisar ou participar de atividades musicais coletivas, a pessoa autista amplia suas possibilidades de interação com outras pessoas, desenvolvendo competências relacionadas à atenção compartilhada, ao contato interpessoal e ao engajamento social (Gattino, 2012).

Louro (2012, p. 110) compreende que o aprendizado musical depende do desenvolvimento de diferentes funções cognitivas, ao afirmar que:

 

no ambiente musical, toda e qualquer ação, seja motora ou mental, precisa das estruturas cognitivas para que seja compreendida e executada; tais estruturas só se desenvolvem quando adequadamente estimuladas e vivenciadas. A música requisita as funções cognitivas, perceptivas e executivas. [...] Essas habilidades só se cristalizam a partir de uma boa maturação neurológica, de um bom desenvolvimento psicomotor.

 

 

Essa compreensão reforça a importância da estimulação musical como experiência significativa para o desenvolvimento humano. A música mobiliza processos perceptivos, cognitivos, motores, emocionais e sociais, favorecendo aprendizagens que extrapolam o domínio estritamente musical.

Além da aprendizagem musical propriamente dita, diferentes metodologias vêm sendo desenvolvidas para utilizar a música como recurso de apoio ao desenvolvimento da linguagem, da comunicação, da socialização e da coordenação motora.

Entre essas abordagens destaca-se a Musicoterapia Improvisacional, descrita por Gattino (2012), que consiste na criação de um espaço relacional em que musicoterapeuta e paciente interagem por meio da improvisação musical, utilizando voz, corpo e instrumentos como recursos de comunicação e expressão.

 

5.      RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

É nesse contexto de limitações de ensino/aprendizagem que estão inseridas as relações entre música e autismo, e isso constitui um campo em expansão nas pesquisas científicas atuais. Embora alguns estudos apontem resultados promissores, ainda não existem evidências suficientes para explicar, de maneira definitiva, todos os mecanismos responsáveis pelos efeitos da música sobre o desenvolvimento de pessoas com TEA. No que se refere ao contexto musical, “há uma manifestação de emoções mais evidente que permite muitas vezes que a música seja um facilitador de comunicação para estes sujeitos” (Gattino, 2012, p.32).

Enquanto Gattino (2012) defende a utilização da musicoterapia “improvisacional” para o tratamento de pessoas com TEA, a pesquisadora Viviane Louro (2012) destaca a importância de desenvolver nas práticas educativas “atividades lúdicas paralelas, tais como jogos, brincadeiras e desafios que estimulem o desenvolvimento da aprendizagem”, entretanto, esses trabalhos têm demonstrado que a música pode favorecer processos relacionados à comunicação, à socialização, ao desenvolvimento cognitivo e ao bem-estar emocional. Além disso, observa-se que algumas pessoas autistas apresentam forte interesse pela música, característica que pode estar associada aos gostos específicos frequentemente descritos no espectro.

Quando se trata de assuntos relacionados aos desafios da educação inclusiva, Mantoan (2015), define que este ensino não se limita a ajustes técnicos ou organizacionais, mas implica uma transformação profunda na concepção de escola e de aprendizagem. A autora defende um movimento de reestruturação institucional que exige, sobretudo, a revisão das práticas pedagógicas e das atitudes docentes, deslocando o foco das limitações do aluno para a responsabilidade da escola em garantir aprendizagem a todos. Enquanto isso, Oliveira (2015, p. 70) afirma que determinados comportamentos presentes em pessoas autistas dentro das escolas, envolvem dificuldades de comunicação, contato visual reduzido, estereotipias, ecolalias, limitações na interação social e resistência às mudanças. Nesse contexto, a música apresenta potencial para favorecer intervenções voltadas à minimização dos impactos dessas manifestações.

Do ponto de vista emocional, a prática musical pode contribuir para processos de autorregulação, favorecendo a expressão de sentimentos e reduzindo situações de ansiedade e agitação em determinados contextos. No âmbito educacional, as atividades musicais estimulam a atenção, a concentração, a memória, a imitação e diferentes formas de aprendizagem.

Conforme Oliveira (2015, p. 114):

 

a música afeta o indivíduo em sua globalidade, contribuindo em questões não estritamente musicais, como, por exemplo, nos déficits decorrentes da sintomatologia autista (socialização, comunicação e comportamento); no desenvolvimento cognitivo, beneficiando a capacidade de imitação, concentração, atenção, observação e percepção; e na movimentação corporal, desenvolvendo o andar, parar, correr, gesticular, dançar e pular.

  

Relatos de familiares atribuídos nas pesquisas também evidenciam que, em determinadas situações, pessoas autistas respondem de forma mais significativa à comunicação mediada pelo canto (vocal ou coral) e por atividades musicais do que à linguagem oral convencional. Embora essas observações sejam recorrentes na literatura e na prática profissional, seus mecanismos neurocientíficos ainda demandam investigações mais aprofundadas.

 

A música como canal de comunicação da pessoa com TEA

A literatura investigada aponta até aqui que experiências musicais estruturadas podem contribuir significativamente para o desenvolvimento humano, especialmente quando associadas a práticas pedagógicas ou terapêuticas planejadas de acordo com as necessidades individuais de cada um. Sobre isso, Joly (2003) aponta para outros aspectos importantes a serem considerados quando se trabalha com pessoas com deficiência, o ambiente de aprendizado “deve ser aconchegante, seguro e motivador”.

Nesse contexto, vale ressaltar que técnicas metodológicas de atendimento as pessoas com TEA, como a educação musical especial e a musicoterapia, divergem em alguns procedimentos. Nesse sentido, Freire, Oliveira e Parizzi (2017) as distingue na tabela 1:


Tabela 1 - Educação Musical Especial e Musicoterapia: peculiaridades e interfaces.

Educação Musical Especial

Musicoterapia

Conjunto de práticas pedagógicas que
visam o desenvolvimento de competências musicais, através de experiências
tais como a apreciação, a performance
e a criação. Mesmo não sendo seu objetivo principal, acaba por desenvolver habilidades extra musicais, como a socialização, a coordenação motora e a percepção temporal e espacial. Na Educação Musical Especial a música é considerada como um fim em si
mesmo
Objetivo central: o aprendizado musical do aluno.

Utilização da música e/ou seus elementos constituintes, tais como ritmo, melodia e harmonia, por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou um grupo, num processo destinado a facilitar e promover a comunicação, o relacionamento, a aprendizagem, a mobilização, a expressão, a organização e outros objetivos terapêuticos relevantes, a fim de atender às necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas.

Objetivo central: a terapia e/ou a reabilitação do indivíduo através da música.

Fonte: Revista Brasileira de Musicoterapia, ano XIX, n. 22, ed. Especial, Curitiba, 2017.

 

É importante ressaltar que a musicalização na educação musical especial e a musicoterapia ajudam no fortalecimento das habilidades de comunicação social, compreendidas como a capacidade de iniciar, manter e responder a interações comunicativas. Cada um a seu modo. Gattino (2015, p.71) também destaca que:

 

 

uma das metas pretendidas pelos profissionais musicoterapeutas é que os pacientes aumentem o nível de comunicação e interação com os demais indivíduos à sua volta. As atividades musicais podem contribuir nesse sentido porque incentivam a atenção e a imitação, que consistem nos pilares da comunicação e da interação social.

 

 

 

Sobre a experiência musical estruturada, o autor ainda identifica quatro categorias de comportamentos que podem ser observadas durante o processo de envolvimento do indivíduo com a música. Essas categorias são apresentadas, a seguir, na Tabela 2, e constituem importantes indicadores do potencial da música para a comunicação de pessoas autistas.

 

Tabela 2 - Indicadores do potencial da música.

1.       Comportamento cronológico:

Ao estar comprometido com a música, o sujeito se adapta à realidade estabelecida por ela e mantém um comportamento objetivo de modo imediato e contínuo. Convém lembrar que o conceito de comportamento cronológico se refere não apenas às formas rítmicas corretas no transcorrer da música, mas também à harmonia, intensidade e melodias corretas.

2.       Comportamento adequado à realidade:

O comportamento musical pode adequar-se às capacidades e aos níveis de funcionamento físico e psicológico do indivíduo.

3.       Comportamento afetivamente orientado:

O indivíduo modifica as suas atividades físicas ou psicológicas ao ser influenciado por diferentes timbres, intensidades, andamentos, melodias e harmonias.

4.       Comportamento elaborado de acordo com os sentidos:

A música requer que o indivíduo aumente o emprego e a discriminação dos sentidos ao estar comprometido com a experiência musical. Além disso, a música pode suscitar ideias e associações extramusicais.

Fonte: Livro Musicoterapia e Autismo: Teoria e prática de Gustavo Schulz Gattino (2015, p.72).

 

Em conjunto, os comportamentos descritos por Gattino evidenciam que a experiência musical mobiliza processos cognitivos, emocionais, sensoriais e sociais de maneira integrada. Essa característica reforça o potencial da música como recurso complementar no desenvolvimento de pessoas com TEA, sobretudo por favorecer experiências de interação, comunicação e aprendizagem em ambientes educacionais e terapêuticos. Assim, mais do que uma atividade artística, a música configura-se como uma estratégia capaz de promover o desenvolvimento integral e ampliar as possibilidades de inclusão social.

Apesar das diferenças metodológicas, observa-se que tais pesquisas apontam uma relação direta entre o uso intencional da música e o desenvolvimento das competências sociais, cognitivas e comunicativas dos estudantes, indicando que a principal barreira para sua adoção não está na ausência de evidências científicas, mas na insuficiente formação dos docentes.

Dessa forma, considera-se que a música representa uma importante possibilidade de mediação pedagógica e terapêutica, favorecendo processos de inclusão e participação social. Contudo, novas pesquisas tornam-se necessárias para ampliar a compreensão acerca das relações entre Música e TEA, fortalecendo as evidências científicas que fundamentam sua utilização nos contextos educacional e terapêutico.

 

6.      CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo teve como objetivo analisar as contribuições da música para o desenvolvimento de pessoas com TEA, a partir de uma revisão bibliográfica de caráter exploratório. As análises realizadas evidenciaram e contribuíram no entendimento de que a música constitui um importante recurso educacional e terapêutico, apresentando potencial para favorecer o desenvolvimento da comunicação, da interação social, da aprendizagem e de diferentes aspectos cognitivos e comportamentais.

As referências teóricas analisadas, apesar de suas limitações, convergem ao demonstrar que a prática musical pode contribuir para a promoção do desenvolvimento integral da pessoa com TEA, desde que planejada de forma intencional e respeitando as características, necessidades e potencialidades de cada indivíduo. Nesse sentido, a música configura-se como uma estratégia de mediação nos contextos educacional e terapêutico, favorecendo experiências significativas de aprendizagem, socialização e expressão.

Ao longo deste trabalho, também foi possível compreender, de forma breve, a necessidade de distinguir os conceitos de musicalização e musicoterapia no contexto da educação inclusiva. Embora ambas utilizem a música como elemento central de suas práticas, apresentam finalidades, fundamentos teóricos e metodologias distintas. A musicalização está voltada ao processo de ensino e aprendizagem da linguagem musical, enquanto a musicoterapia integra o campo da saúde e utiliza a música como recurso terapêutico para promover desenvolvimento, reabilitação e qualidade de vida.

A literatura consultada demonstra, ainda, que diferentes estudos têm apontado benefícios associados à utilização da música com pessoas autistas, especialmente em aspectos relacionados à comunicação, à interação social, à atenção, à cognição e ao fortalecimento dos vínculos familiares. Entretanto, os próprios estudos ressaltam que tais benefícios variam conforme as características individuais de cada pessoa e o contexto em que as intervenções são desenvolvidas.

Outro aspecto evidenciado nesta pesquisa refere-se ao crescente interesse de parte da comunidade científica pelas relações entre Música e Transtorno do Espectro Autista. Apesar dos avanços observados nas últimas décadas, ainda existem muitas lacunas que justificam o desenvolvimento de novas investigações, especialmente estudos empíricos que permitam compreender com maior profundidade os mecanismos pelos quais a música pode favorecer o desenvolvimento de pessoas com autismo.

Dessa forma, considera-se que a música possui significativo potencial como recurso pedagógico e terapêutico no contexto da educação inclusiva, podendo contribuir para práticas mais humanizadas, acessíveis e centradas nas singularidades das pessoas autistas.

Espera-se que esta pesquisa contribua para ampliar as discussões sobre a temática e incentive o desenvolvimento de novas investigações voltadas à utilização da música como instrumento de promoção da aprendizagem, da inclusão e da qualidade de vida.

Por fim, retoma-se a conhecida reflexão atribuída ao filósofo Friedrich Nietzsche quando nos diz que "sem música, a vida seria um erro". Embora se trate de uma afirmação de natureza filosófica, ela sintetiza a relevância da música como expressão da experiência humana e reforça sua capacidade de favorecer processos de desenvolvimento, inclusão e participação social, especialmente quando utilizada de forma ética, planejada e fundamentada em evidências científicas.

 

Declaração de Uso de IA:

Em conformidade com as diretrizes de integridade científica do CNPq, declara-se que a ferramenta ChatGPT foi utilizada exclusivamente como suporte técnico para revisão gramatical e formatação das referências. O uso da ferramenta não substitui a autoria humana, e os autores revisaram integralmente o conteúdo, assumindo total responsabilidade pela análise e redação final deste trabalho.

 

REFERÊNCIAS

Artigo em Revista:

FREIRE, Marina Horta; OLIVEIRA, Gleisson do Carmo de; PARIZZI, Maria Betânia. Música e autismo: um relato de experiência entre a musicoterapia e a educação musical especial. Revista Brasileira de Musicoterapia, Curitiba, ano XIX, n. 22, ed. especial, p. 85-90, 2017. Disponível em: https://musicoterapia.revistademusicoterapia.mus.br/index.php/rbmt/article/view/173. Acesso em: 15 jul. 2026.

 

ROCHA, Viviane Cristina da; BOGGIO, Paulo Sérgio. A música por uma óptica neurocientífica. Per musi, Belo Horizonte, n. 27, p.132-140, 2013. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1517-75992013000100012. Acesso em: 10 set. 2025.

 

Dissertação, Tese e Trabalho de Conclusão de Curso:

GATTINO, Gustavo Schulz. Musicoterapia aplicada à avaliação da comunicação não verbal de crianças com Transtorno do Espectro Autista: revisão sistemática e estudo de validação. Tese de doutorado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/56681/000860826.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 20 jul. 2026.

OLIVEIRA, Gleisson do Carmo. Desenvolvimento musical de crianças autistas em diferentes contextos de aprendizagem: um estudo exploratório. Dissertação de Mestrado, Escola de Música, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2015. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/items/b0f65af3-b063-4aae-ab1f-d42e66288901?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 20 jul. 2026.

 

Livro:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Tradução de Maria Inês Corrêa Nascimento et al. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BARBOSA, Ana Mae. Abordagem triangular no ensino das artes e culturas visuais. São Paulo: Cortez, 2010.

BENEZON, Rolando. (1985). O manual de Musicoterapia. Rio de Janeiro RJ: Enelivros.

GAINZA, Violeta Hemsy de. Estudos de psicopedagogia musical. 3. ed. São Paulo: Summus, 1988.

GATTINO, Gustavo Schulz. Musicoterapia e autismo: teoria e prática. São Paulo: Memnon, 2015.

JOLY, Ilza. Educação musical e inclusão: Uma experiência com crianças com necessidades especiais. São Paulo: Moderna, 2003.

LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos de metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003.

LOURO, Viviane dos Santos. Fundamentos da aprendizagem musical da pessoa com deficiência. São Paulo: Editora Som, 2012.

MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão escolar – O que é? Por quê? Como fazer? São Paulo: Summus, 2015

PENNA, Maura. Música(s) e seu ensino. 2. ed. rev. e ampl. Porto Alegre: Sulina, 2015.

PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. 15. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2017.

SEKEFF, Maria de Lourdes. Da música: seus usos e recursos. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

SWANWICK, Keith. Ensinando música musicalmente. São Paulo: Moderna, 2003.